3 June 2010

O sentido do nonsense


At the event "Aliceday 2010" (see more HERE) the writer Wilson Bueno gave a lecture on Lewis Carroll and the sense of nonsense. Initially, Wilson Bueno read a text with a magnifying glass of his creation inspired by Alice: "Alice Minimum." Then Wilson talked about the tradition of nonsense. And to complete, based on his childhood experiences, Wilson talked about the nonsense of the interior of the country where snakes cook calves and new glasses have no frame or lenses but are new glasses. A lecture light, funny, playful. The audience laughed and had a great time. Unfortunately our beloved Wilson died this year, two months after the event.



Palestra de Wilson Bueno no evento "Um dia, Alice 2010" (11/04)








Onde está a tão cantada e decantada “verossimilhança”, força e motriz dos romanções destinados a entreter os fins de semanas de exaustos executivos, daqui ou dalhures, nesta paródia que, com muito gosto, a instâncias de Adriana Peliano, nossa Rainha da Sociedade Lewis Carrol do Brasil, e a ela dedicada, compus no silêncio do meu estúdio de arrabalde em Curitiba?

Sobretudo uma menina do tamanho de Alice chegar a tão diminutas proporções, tão diminuta que só poderá ser enxergada através de uma lupa! Impossível que Unicórnios instruam Lagartas para caçar uma danada de uma Pulga Larápia! Impossível que Coelhos escondam poções atrás de poltronas! Impossível que existam conta-gotículas que caibam na quase invisível boquinhazinha de uma Alicemínima, só visível através de lentes de aumento!

A rigor, senhores, não fosse a mágica da grande arte, impossível teria sido até mesmo o surgimento de Alice, essa personagem que passado mais de um século está aí mais viva do que muita gente, ora na modorra de seus descansos de domingo, por exemplo? E mais viva do que muito autores que, fiéis a um realismo de bolso, as traças do esquecimento já engoliram.

Pois é desses impossíveis, comprovadamente possíveis, que pretendo conversar com vocês hoje, aqui, nesse belo auditório do Centro Cultural Brasileiro Britânico e frente a tão simpática platéia. Basta o interesse por Lewis Carroll para eu achar qualquer platéia simpática, diga-se de passagem... Pois gostar de Lewis Carroll eu entendo como gostar da essência mesma do que os antigos chamavam de “ars litteraria”. Não entendo literatura sem bruxedo, feitiço, encantamento. Copiar o real, que é o que os naturalistas fazem, sem buscar na aparente mediania das coisas a transcendência me parece ofício natimorto, se o que pretendemos é o gozo literário, o gozo do mágico que toda autêntica literatura há de encerrar sempre.

E, claro, talvez desnecessário lembrar que não estamos falando aqui de disparates. Mas, sim, dessa capacidade de escavar o mágico de toda grande literatura. Vejam vocês um exemplo simples: a personagem Alice se espanta quando a Gata revela que gosta de comer morcegos. O estranhamento que Carroll produz nesse trecho de seu livro é exemplar e, acho, didático para que o que pretendo colocar aqui, agora, com relação ao disparate. Nada está fora do lugar. Nada mais prosaico do que um felino, como a Gata do livro, comer uma coisa chamada Morcego. Mas, contudo, todavia, nos percorre um verdadeiro frisson, um frisson que comungamos com Alice quando ela, pasma, pergunta à Gata: “Mas você come morcego?”. Embutida na indagação aparentemente inocente está, a meu ver, um mundo de dissonâncias artísticas, dessa MÁGICA em que insisto aqui, a partir de nosso bruxo Carroll. Alice nada mais diz e nem mais nada é acrescentado. Apenas pergunta: “Mas você gosta de comer morcego?”. Não desautoriza, digamos, a Gata, a comer morcego. Apenas, pela via da grande arte, Carroll nos dá o “estranhamento” de Alice. E NÃO É MESMO, PENSANDO BEM, UMA COISA TERRÍVEL, SINISTRA, ALGUÉM SE ALIMENTAR DE MORCEGO?????

Outro momento sublime que gostaria de destacar, mesmo en passant, este de Alice Aravés do Espelho, é o notável encontro de Alice com o Unicórnio, para mim a essência e a possível “explicação” principalmente da arte literária. Ao topar com aquele bicho esquisito, mítico, com o corpo de cavalo, um unico chifre no meio da testa, barba de bode e cascos fendidos, a pequena Alice não hesita em lhe dizer, sem meias palavras:

“- Sabia que eu sempre pensei que os unicórnios fossem monstros fabulosos? Nunca tinha visto um vivo antes!!!!”
E o Unicórnio, numa sabedoria que só a arte de Lewis Carroll poderia emprestar, responde a uma curiosa Alice:
“- Bem, agora que nos vimos, eu acredito em você se você acreditar em mim. Não é um trato justo?”





Aí a essência também do ato igualmente mágico de ler. Existirá momento mais “crédulo” do que este em que abrimos um livro e seguimos acompanhando as “verdades”, as supostas “verdades” do que se desenrola e se desenrolará à nossa frente? É tudo mentira, gente; é tudo ficção; é tudo figura. Entretanto, imersos no ofício ledor o que fazemos, com o maior dos empenhos? Fazemos uma suspensão temporária de nossa ‘DESCRENÇA’ e passamos a DELIBERADAMENTE acreditar, com a mais pia credulidade, em todas aquelas invencionices, mesmo quando nos debruçamos sobre um livro do quase jornalístico Zola ou de qualquer realista mais empedernido.

O que dirá, senhores, ler Lewis Carroll, onde lagartas falam e filosofam, unicórnios se assustam com gente, Coelhos se vestem nos trinques, no mais impecável fraque de listras? Cartas de baralho viram personas falantes????

Outro detalhe a chamar atenção em Carroll, é a sua capacidade de encarar o leitor, não como criança, mas como gente. Daí que ele é este fabuloso autor destinado a crianças de O a 100 anos!!!! E, bem ao contrário do Dr. La Fontaine, aquele mesmo que puniu duramente a Cigarra porque cantava, como se cantar fosse a mais pecaminosa vagabundagem e premiou a Formiga, operária e trabalhadora. Quem conhece o meu livro de anti-fábulas “Cachorros do Céu”, publicado pela Planeta, em 2006, saberá que também já puni, ou tentei, exemplarmente o Dr. La Fontaine por este crime. Onde já se viu a Formiguinha, ao final da história, negar comida no inverno à Cigarra só porque esta cantou durante todo o verão e não acumulou comida na despensa? Ora, cantar não é um afinado ofício??????



Fábulas moralizantes, cheias de “ensinamentos”, um “how to do”, um “como fazer” destinado a crianças tidas previamente como boçais. Há o mágico, mas isso não qualifica o Dr. La Fontaine, em minha opinião, como um escritor à altura das magias de nosso gênio e lume, o velho reverendo Charles Dodgson, capaz de enfrentar a danadamente reacionária sociedade de seu tempo para nos dar algumas das obras-primas de todos os tempos da literatura universal.

Tanto Alice no País das Maravilhas quanto As Aventuras de Alice Através do Espelho nos ensinam a pensar a arte de escrever também como uma arte de ler, dando a quem a elas se acerca, a fabulosa e fabulante capacidade de criar junto, de criar de novo, de re-criar as mágicas atmosferas que o autor, como todo autor que se preza, apenas insinua. O resto é com o nosso olho ledor, o resto é com o nosso imaginário, sendo o escritor apenas o guia que nos leva por estes caminhos de encantadas poções e de autoritárias rainhas dispostas a cortar as nossas cabeças.


Abelardo Morell

Nasci no sertão profundo, amigos. Sou do fundo do fundo do fundo deste país marginal por natureza. Vim a este insensato mundo num povoado chamado Água do Salto, a 50 quilômetros de uma minúscula cidade chamada Jaguapitã ( que em tupi-guarani quer dizer “cachorro vermelho”, jaguá – cachorro/// pitã – vermelho). Jaguapitã, por sua vez, fica a 40 quilômetros de Londrina. Se pusermos tudo isso no ano de 1949 e então estaremos falando com alguém que nasceu no sertão mesmo, um caboclo talvez, ao menos de nascença. Hoje o Paraná não tem mais sertão. É só um vasto campo de soja, milho, cana de açúcar...

E são desses ermos, posso confessar ao senhores e às senhoras, as minhas intensidades mais lúdicas, as intensidades com que vivi até os 7 anos. Menino pobre, filho de lavradores, meus brinquedos eram, além dos sabugos de milho transformados em bois ou transformados em carrinhos puxados com barbante, os bichinhos selvagens que, feito índios, forçadamente domesticávamos. Coatis, catetinhos ( que são os filhotes dos catetos, os porcos selvagens), e principalmente sagüis, macaquinhos. Nos aferrávamos, não só eu, mas também minha saudosa e inesquecível mãe, a vigorosa cabocla Dona Cida, recentemente falecida, a estes bichinhos, nos aferrávamos a eles, sem exagero, do mais entranhado amor.

Quando morriam ou sumiam na floresta (e os coatis e os macaquinhos eram os mais propensos a essas fugas) vocês podem imaginar a tragédia íntima que entre nós se instalava no rancho de chão batido e de cujas frestas pela primeira vez vi a lua, estranhando-a, lembro-me, como nossa Alice estranhou o Unicórnio ou ficou pasma de que uma gata tão linda pudesse se alimentar de morcegos... A lua era um olho dourado que nos vigiava do profundo azul estrelado e o que era mais inacreditável: no céu andava, se deslocava no céu, esfera luminosa, ali onde minha mãe dizia, era só prestar atenção, poderíamos ver São Jorge. Olha lá, dizia D. Cida, contornando com o dedo a imagem do guerreiro em cima de seu cavalo. Não precisa dizer que, para mim, aquilo soava como a mais pura verdade. E eu chegava a temer que cavalo e cavaleiro pudessem cair lá de cima, despregar-se da lua e espatifar-se cá embaixo.

Quando perguntei, aliás, certa vez, à minha avó, porque São Jorge não caía lá de cima, de cima da lua, ela me respondeu, carrolliana sem o saber: “ Porque se caísse, era verdade que São Jorge estava lá na lua mesmo”, como minha mãe garantia. “Se a gente for pensar bem, nem a lua existe, menino. É só uma luz que Deus pôs no céu pros bichos poderem enxergar no escuro.” Claro, era a explicação de uma cabocla, analfabeta, neta de índios, vezeiros e certeiros em amar tudo o que pudesse sugerir ilusionismo, magia, feitiçaria, contos daqui ou dos fantasmas dos tantos céus em que crêem.

O que explica também, e muito, em meu entender, essa vocação para o nonsense, inata nos matutos, sobretudo os brasileiros. Essa quadrinha, por exemplo, só pra começar.Vejam só que delícia:
Comprei uns óculos novos,
óculos dos mais excelentes,
não têm aros, não têm asas,
não têm grau e não têm lentes...

Fácil da gente perceber principalmente aí que o não-sentido faz o maior sentido. A rigor, o que o poeta anônimo quis dizer é que não há óculos nenhum, embora ele seja dono dos mais excelentes óculos já produzidos no mundo. E não deixa de fazer perpassar na quadrinha um desconcertante orgulho por isso. Esta a alma de Carroll, de Lear e de tantos que cultivam o chamado nonsense, uma palavra aparentemente antipática, ela própria a esvaziar o sentido de todo o seu sentido. Porque a verdade límpida é essa: o não-sentido, em arte, é o que tem significado, é realmente o que faz o maior sentido. O SENTIDO DO NONSENSE!!!! Posto que desdobra o sentido, amplia o sentido, dá peso e consistência ao não-sentido, o que pode soar como um disparate mas é a mais cristalina verdade. A verdade pura e quiçá inocente do NÃO-SENTIDO – pleno, repito, de sentidos.



Uma das maiores grandezas do não-sentido é ao indicar o sentido, indicá-lo com GRAÇA, essa palavra mágica em quase todos os idiomas civilizados. É dizer com graça – que podemos ler em vários sentidos – seja o do ENGRAÇADO, O DO CHEIO DE GRAÇA, ISTO É CHEIO DE SANTIDADE. Sobretudo quando pensamos em seu contrário, em sua antítese, que nos esclarece ainda mais sobre o seu próprio significado, o significado maior da palavra GRAÇA. QUALQUER UM SABE MUITO BEM O QUE SEJA UMA DES-GRAÇA....

E vejam vocês, em outro exemplo, o que há de graça, numa simples anedota, de autoria anônima como toda anedota, engraçada, cheia de graça e de sentido, por mais louca, digamos, que possa parecer. E com um molho carioca difícil de disfarçar:

José se encontra com um amigo no centro da cidade do Rio, no bar Amarelinho, na Cinelândia, local aliás onde se serve um excelente cafezinho de balcão.
- José do céu, meu Deus!!! – exclama o amigo, desesperado.
- O que houve? – pergunta José.
- Rapaz do céu, corre. Corre, rapaz!!! Acabo de saber que a tua casa está pegando fogo, em Niterói. Tua mulher não te achava e ligou pro meu celular, aflita!!! Teus filhos correm perigo, José. A casa está em chamas...
José nem agradece ao amigo, sai correndo em direção à Praça XV que fica bem em frente a Niterói. E nem sequer espera a barca que faz a travessia do trecho de mar que separa o Rio de Niterói. Se atira na água e a braçadas vigorosas!
Quando já está no meio da baía, arfante, desesperado, a ponto de um colapso físico e mental, só então se dá conta de que seu desespero é de uma idiotia sem precedente:
MAS, MEU DEUS DO CÉU, EU NÃO ME CHAMO JOSÉ, NÃO SOU CASADO E NUNCA MOREI EM NITERÓI!!!!

Que lição extrair de um fato desta natureza que, em meu entender, é muito mais do que uma anedota???? É um raconto de uma “moral”, no bom sentido, extremamente instrutiva. Quantas e quantas vezes não nos pegamos na mesma situação, alugados com os problemas alheios ou mesmo com os próprios e que de repente flagramos: a rigor não são nada do que pensamos e nem possuem a valoração que estamos dando a eles. No geral, nos surpreendemos: mas que zorra é esta? Não me chamo José, não sou casado e não moro em Niterói... O que é que estou eu fazendo aqui no mar revolto no meio da baía de Guanabara?

Também as histórias – ou estórias – do sertão profundo, onde nasci e me criei até os 7 anos, tendo, como já disse, coatis e macaquinhos como animais de estimação trazem sempre consigo, de modo invariavelmente exemplar, construções e desconstruções que fariam inveja ao nosso ídolo Lewis Carroll.


Lewis Carroll


De novo aqui, como veremos, o nonsense a se presta muito mais à amplificação dos “sentidos” do que do aparente “não sentido” com que, nele, no nonsense, as coisas costumam se apresentar. O ABSOLUTO SENTIDO DO NONSENSE, REPITO. Este o cerne e a essência, como estamos vendo, de todo “absurdo” – entre aspas evidentemente...

Se a gente pega o folclore sobretudo do interior onde nasci, do fundo do fundo do fundo deste país, por exemplo, vamos encontrar a graça da graça através de autênticas pérolas do humor/amor mais deslavado. Sim, porque humor e amor andam juntos, sabemos, e não só como palavras similares, capazes de se entranhar uma na outra...

É singular referência do que falo esta estória que ouvi quando criança no sertão:

Bebinho-bebinho, tentando abrir a porta do rancho com o palheiro, que tirou detrás da orelha, o caboclo, é claro, não consegue.
Observando a cena, o vizinho e também compadre não se contém:
- Ô compadre, como é que o senhor quer abrir a porta com o palheiro? Não vai conseguir nunca, compadre...
Ao que o capiau “borracho” conclui de pronto, fulo da vida:
- E não é então que eu fumei a chave, compadre...


Outra, de mesma hilária doçura é esta também da minha infância sertaneja:
O meganha põe o bebum na linha do trem:
- Se embriagado NÃO está, me prove, andando, e já!, bem reto entre estes trilhos aqui:
Ao que capiau responde:
- Claro, claro, “seo” guarda. Mas em qual dos três????


Outra do sertão e envolvendo bêbados, que a cachaça é farta no sertão, geralmente de alambique de fundo de quintal e pega mais que veneno de cascavel ou do jararaca:
O bêbado, a chave do rancho na mão, não sai do lugar. Chove muito e alguém pergunta:
- Mas o que é o que compadre está fazendo aí, parado na chuva, a chave da casa na mão, compadre?
- Só tô esperando a vez da minha casa passar, compadre, pra poder abrir a porta e entrar, ora...

Para quem conhece o Lewis Carroll de nossa encantada e encantatória Alice não pode esquecer, por exemplo, do trecho, em que numa discussão sobre impossibilidades, coisas inalcançáveis, nossa alicenógena personagem conclui, frente à Rainha:

- Não adiantar tentar, Rainha. Não adianta, não podemos acreditar em coisas impossíveis...
- Com certeza você não tem muita prática, minha pequena – destaca a Rainha. – Quando eu era da sua idade, sempre praticava meia hora por dia esse exercício de acreditar... Ora, algumas vezes cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes mesmo do café da manhã.

Como não verificar a graça que mora nesse diálogo encantado? Como não acreditar que o impossível está sempre presente e imanta o nosso cotidiano de um modo constante, mágico, irrecorrível?

E que nos faz, pela graça e o encanto, de seu “rigor de sentido” a um outro sentido no não-sentido que me ocorre aqui, também do sertão onde vivi até os sete anos, também de domínio público, e que faço aqui uma ligeira adaptação regional, paranaense, digamos:

O caipira perguntou pro outro caipira o que era esse tal de telégrafo sem fio, uma revolução à época, tão impactante quanto a internet, o email, em nossos dias:
E o capiau explicou, com gosto e gozo, devagarinho, sem pressa, sorvendo palavra a palavra a sua sabedoria, soberbo, diante do desprezível compadre que não entendia de nada, nem de telégrafo sem fio, posto que raramente ia à cidade grande:
- Olha, compadre, o telégrafo sem fio....Pois não: imagine um cachorro basset, tão comprido, mas tão comprido, que a cabeça está aqui no sítio e a ponta do rabo lá na capital, em Curitiba, umas mil léguas daqui.
Então, compadre, presta atenção: se a gente belisca a ponta do rabo aqui no sítio, a cabeça do cachorro, lá em Curitiba, mais de mil léguas, pega a latir... Te garanto, compadre..

- E é isso então que falam por aí que é o telégrafo-sem-fio?
Ao que o compadre reexplica:
- Não, compadre, meu. Não. Isso é o telégrafo COM fio. O sem fio é a mesma coisa... Só que sem o corpo do cachorro... Entendeu?


Outra quadrinha que dialogo, que conversa com os óculos novos sem aros nem lentes declamadas agora há pouco que me lembro neste momento, é da mesma pegada, da mesma poesia, o mesmo sentido no não sentido, e é de autoria do insopitável Barão de Itararé (1895-1971), cáustico crítico sobretudo da chamada República Velha, e, claro, dos anos subseqüentes a ela, e eterno, óbvio, enquanto durou em sua vida as mazelas de nossos políticos e politiqueiros.
A quadrinha que lerei a seguir, não tem nada a ver com o varejo político, tão ao gosto dele, do Barão de Itararé, que aliás editava sozinho um jornal chamado “A MANHA”, em oposição a outro jornal famoso da época, e muito sério, que se chamava “A MANHÔ. Nosso Barão, pseudônimo de Aparício Aporelly, era o rei igualmente, a exemplo de Carroll, dos trocadilhos, das junções de palavras dando origem a novos significados, enfim a pândega que as palavras podem criar. Inesquecível é o que publicava diariamente no seu jornal, uma vinheta cujo título era O DIA DO PRESIDENTE. Não precisa acrescentar que com O DIA DO, ele queria dizer ODIADO... O presidente acho que era o Hermes da Fonseca, se não me falha a memória...

Pois a quadrinha de Aporelly é esta e vejam que coisa absolutamente genial:
AS MINHAS CEROULAS NOVAS,

CEROULAS DAS MAIS MODERNAS,

NÃO TÊM CÓS, NÃO TÊM CADARÇOS,

NÃO TÊM BOTÕES E NÃO TÊM PERNAS.


No sertão, de uma forma geral, quando indagado sobre o que era o NADA, o caboclo costumava responder:
O NADA É UMA FACA SEM LÂMINA DA QUAL SE TIROU O CABO...

Curioso que fui achar isso numa pesquisa sobre nonsense sertanejo e me lembrei que minha avó já dizia isso e explicava o nada dessa forma, com todas as letras:
O NADA É UMA FACA SEM LÂMINA DA QUAL SE TIROU O CABO, OU O NADA É UM LARANJAL ONDE NÃO SE PLANTOU NENHUM PÉ DE LARANJA, E AÍ POR AÍ AFORA...

Era tão absolutamente engraçada e surrealista, a minha avó cabocla, de nome aristocrático MARIA CUSTÓDIA ROSA DE SENES que, no sertão, nos ranchos em que vivíamos, como já disse, de chão batido, às margens do rumoroso Paranapanema, ela cansou de me inventar brinquedos.
O mais carrolliano de todos era o das borboletas que fazia de papel de bala, guloseima meio rara, aliás, mas que de vez em quando aparecia no sertão, principalmente nas maletas dos mascates, geralmente árabes... Ela guardava os papéis com extremo cuidado dentro de uma caixa. Quando juntava bastante, fazia pequenas borboletas coloridas e esvoaçantes com eles. Amarrava uma linha em cada um e os colocava na janelinha do rancho. Ah, como voavam, multicores, as borboletas de minha avó, esvoaçando contra o azul e a aragem que o Paranapanema mandava, rio enorme, feito uma brisa de rio-mar...

Por falar nisso, me lembrei do que um canoeiro uma vez respondeu quando perguntado o que era uma rede de pescar:

UMA PORÇÃO DE BURACOS AMARRADOS COM BARBANTE...
Ao que ajunto outra, de mesma família, essa colhida junto à minha mãe que era costureira. Aliás, pra lembrar Clarice Lispector, a minha mãe costurava pra fora e este seu filho aqui, escritor, só costura pra dentro...
Perguntou ao homem do armarinho :
- O senhor tem pano pra remendos?
Ao que ele, galhofeiro, respondeu:
- Mas de que cor são os buracos, minha senhora?

Ah, o sertão... O sertão... que me deu tantas coisas até os 7 anos e baseado em suas intensidades fiz vários livros, sejam os voltados para o que os doutores chamam de minha “vertente zoofílica”, dedicada aos animais – de fábulas a racontos -, uma trilogia composta por MANUAL DE ZOOFILIA, JARDIM ZOOLÓGICO E CACHORROS DO CÉU. Sejam duas das ficções mais ou menos longas que produzi e que mais me agradam – as novelas “Meu Tio Roseno, A Cavalo”, e mais recentemente, publicado apenas na Argentina, o ano passado, em edição bilíngüe – espanhol/português – o “Canoa Canoa”, uma homenagem aos rios que marcaram minha intensa infância no sertão profundo. É a história de uma canoa chamada Canoa que, numa tempestade perdeu seu Canoeiro e o segue buscando, buscando, ao sabor do vento e das tempestades, rios e rios porque, sabemos, uma canoa não pode viver sem seu Canoeiro. Mas esta já é outra história...

Desde minha primeira paixão por Alice e por Carroll que venho também colecionando coisas de criança, ao modo do saudoso Pedro Bloch que durante muitos anos publicou na igualmente saudosa revista Manchete ( não sei se a maioria aqui presente é desse tempo...) uma secção chamada “Criança diz cada uma...”.



E é de chamar a atenção o que o nonsense das crianças dialoga com o nonsense carrolliano, a meu ver. Penso até mesmo, e creio não estar enganado, que Carroll se inspirou muitíssimo em sua observação das crianças para chegar aos seus antológicos disparates, carregados, como já disse, de sentido no não sentido. Pois vejam esta aqui, companheiros, que aconteceu de fato, na última temporada de praia, com uma amiga minha, já avó, avó de Elzinha, acho que já com uns 7 anos:
Espantada, a menininha, acostumada a ver minha amiga, sua avó, sempre de vestido e avental, na cozinha, vira-se para essa minha amiga, uma senhora já, então a bordo de um maiô de alça, na praia:
CREDO, VÓ, COMO É QUE VOCÊ FICOU FEIA SEM A ROUPA DE VÓ...

Essa outra aconteceu com a filhinha de um amigo meu, pois assim que me contam, anoto rápido no primeiro papel e passo tudo pra um velho caderno só com essas delícias de crianças sempre acordadas:

A filha do meu amigo estica o dedinho apontando ao longe a montanha:
- Ta vendo, lá, pai?
- Vendo o quê, filha? A montanha? – repergunta o meu amigo.
- É a montanha, pai. Mas sabe o que ela tá fazendo agora? Tá lá deitadona, descansando...

Querem outra? Igualmente digna de Louis Alice no País das Maravilhas Carroll????

O irmão mais novo para o mais velho:
- O pai disse que eu vou crescer, crescer, crescer assim, ó... Desse tamanhão...
- É mesmo? – pergunta o irmão mais velho e já bem mais alto...
E aí o menorzinho se sai com essa pérola:
- É, sim, e aí sabe? Sabe o que vai acontecer? Vai acontecer de que vai ser eu, crescendo, crescendo, que vou ser o seu irmão mais velho, seu burro?


Tem uma que aconteceu mesmo também, na minha infância, e que sempre que eu trato desse tema, seja em jornal, em crônica ou mesmo no dia a dia com alguns amigos, não consigo deixar de lembrar. Mesmo porque meu irmão não está mais aqui, e era o único irmão que eu tive. Lamentável isso mas é a vida e a vida às vezes nos apresenta coisas incontornáveis.

A gente bem pequeno, já morando em Curitiba, de repente, encontramos um pardal morto no jardim. E é curioso, não sei se você já observaram – de um modo geral, os passarinhos quando mortos não ficam nem de borco nem de lado, mas durinhos, pra cima, as perninhas viradas pra cima. É sempre comovente um passarinho morto, eu acho, ao menos...

Pois achamos o pardal morto no jardim. Eu, mais velho, tratei de ir pegando pela perninha do pardal para tirá-lo do caminho, jogá-lo longe ou quem sabe, imaginação perdulária, inventar um enterro pro passarinho, com missa e tudo, eu de padre, claro...

Mas na hora que levei a mão pra pegar o pardal, meu irmão me segurou o braço, ligeiro:
NÃO, NÃO FAÇA ISSO MANO. VC. NÃO ESTÁ VENDO QUE O PARDAL SÓ SAIU DELE UM POUQUINHO MAS JÁ VOLTA????

Tudo isso parece brincadeira, não é mesmo, senhores? Mas nada mais absurdamente brincante do que tudo o que inventou, ou reinventou o gênio desse nosso impagável ícone e ídolo, nosso reverendo Dodgson, fotógrafo, matemático, ficcionista, poeta, um buscador da vida e das epifanias da vida como dificilmente encontramos em outros inventores literários, de qualquer língua.

Só ele, entre outros antológicos ilusionismos, atravessou espelhos, pôs lagartas para filosofar, aumentou e diminuiu uma menina chamada Alice quantas vezes sentiu que fosse necessário e sobretudo no ensinou a lição de que nada é impossível, até mesmo – ou sobretudo – a mágica de a gente, através da literatura, principalmente sonhar acordado.

Maior lição de vida, impossível, não é mesmo????


Mas eu gostaria de encerrar esse nosso agradável encontro com uma frase, do escritor Guimarães Rosa, outro cultor de nonsenses cheios de sentido e de bruxescas artesanias:

O SONO DO PEIXE É APENAS UM DESCUIDO DA ÁGUA....

MUITO OBRIGADO!!!!!




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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together monsters, desires and fairy tales. Her collages and assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de coisas e rastros de estórias, Adriana Peliano costura monstros, desejos e contos de fadas. Suas colagens e assemblagens são inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”